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Postado em 17 de Fevereiro de 2020 às 08h26

Agricultura que cuida do solo também faz bem para o planeta

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Problemas ambientais estão na lista dos maiores desafios que a humanidade precisa enfrentar nesta e nas próximas décadas. Entre estes problemas, muito se fala das mudanças no clima. Estas se traduzem em uma tendência de aumento nas médias históricas de temperatura e precipitação, ampliando a ocorrência de eventos inesperados e extremos (como excesso de chuvas em curto espaço de tempo, veranicos e períodos secos mais frequentes e intensos).

A agropecuária é um setor bastante sensível às alterações do clima. Eventos extremos causam sérios prejuízos e perdas consideráveis em safras e na pecuária. E no longo prazo, as mudanças nos padrões de temperatura e precipitação alteram a geografia da produção, elevando o risco de perdas e diminuindo a aptidão de algumas culturas em determinadas regiões.

Mas, apesar da agropecuária ser fortemente impactada por mudanças nos padrões de temperatura e de chuvas, esta pode contribuir para combater essas mudanças a partir da adoção de algumas práticas e técnicas já conhecidas, hoje agrupadas e denominadas de "agricultura de baixa emissão de carbono", ou "Agricultura ABC".

Como praticamente todas as outras atividades produtivas praticadas pelo homem, a agropecuária também gera emissões de gases de efeito estufa, que são apontados como os causadores das mudanças climáticas. Mas a agropecuária tem uma "arma secreta" capaz de reduzir tais emissões: o acúmulo de matéria orgânica no solo. E diversas práticas contribuem para tornar o solo uma verdadeira "bomba" de acúmulo de carbono, como o plantio direto de qualidade, a recuperação de pastagens degradadas e o manejo eficiente das forrageiras, os sistemas integrados que combinam lavoura, pecuária e/ou floresta em uma mesma área (sistemas iLPF), a fixação biológica do nitrogênio em plantas leguminosas como a soja e o feijão, e o tratamento de dejetos para produção de energia e fertilizantes orgânicos.

Essas práticas são as que compõem a "Agricultura ABC", que ganhou até uma política pública para seu fomento, o Plano de Agricultura de Baixo Carbono, ou Plano ABC. Parte dessa política é implementada através do Programa ABC, uma das linhas de crédito de investimento disponíveis no Plano Agrícola e Pecuário (Plano Safra), que fornece recursos a taxas de juros entre 5,25% a 7% ao ano para implementação das práticas da Agricultura ABC. Desde o ano de 2010, mais de R$ 18 bilhões foram captados por agricultores e pecuaristas de todo o país para adoção dessas práticas.

Mas, convenhamos, o produtor rural não é "movido a carbono". O que torna essas práticas atrativas mesmo é o ganho de produtividade que elas proporcionam. E ainda, aumentam a resistência e a recuperação do sistema produtivo diante de problemas climáticos, a chamada "resiliência", nas lavouras e criações que adotaram essas técnicas. Em outras palavras, as práticas que permitem melhorar a "saúde" e qualidade do solo geram, ao mesmo tempo, uma maior capacidade de enfrentar situações climáticas adversas, como chuvas intensas e períodos secos imprevistos. Isso porque contribuem para maior capacidade de infiltração e retenção de água no solo, maior desenvolvimento e aprofundamento das raízes, melhor proteção do solo contra o impacto das gotas de chuvas, entre outros benefícios.

Resumindo: quem pratica a Agricultura ABC melhora a saúde do solo, aumenta a produtividade da fazenda, fica mais resistente a eventos climáticos extremos, e ainda contribui para a regulação do clima do planeta!

 

Por Angelo Costa Gurgel, Coordenador do Mestrado Profissional em Agronegócio da FGV e Tatiana Claro Caruso, Mestre em Agronegócio pela FGV

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